Загрузка...

AI-разбор доступен после входа

Суть книги, пересказ, главный конфликт, ключевые идеи, вывод, кому полезна, главные темы, персонажи и цитаты можно получить после входа в BookRa.

auto_awesomeПолучить AI-разбор

О книге

Дата написания1970-01-01
Язык книгиpt
Возрастное ограничение0+

Читать онлайн

Страница 2 из 48

–Se a tanto me ajudar, disse o Camões, e a nada o ajudou, nem sequer a envisgar de raiz o coração d'aquella dama da rainha D. Catharina!.. Chamavam-lhe a Bocca-negra da alcunha da mãe; mas meu pai, que a viu no mesmo dia em que o poeta a encontrou na egreja das Chagas, n'uma sexta feira da Paixão, em 20 de abril de 1542, disse-me que a menina era tão esbelta como trêda. Que farte a cantou o poeta com diversos nomes; até que ella, norteando o coração a mais substanciosos amores, tractou cazamento com outro e finou-se antes de realisar o intento. Á conta d'esta ingrata quatro vezes foi desterrado o nosso Homero. Primeiro, de Coimbra, onde estava a corte, para Lisboa. Veio a corte para Lisboa, desterraram-no para Santarem; depois para Africa, e por derradeiro para a India, d'onde voltou á mercê d'alguns passageiros. (Nota 3.ª)

Não são de mais estes exemplos referidos a um galan de Guimarães que vai implumar as azas debaixo dos tectos reaes da vice-rainha duqueza de Mantua para depois voar…

–Sei todas essas historias, sr. provedor—atalhou Domingos Leite.—E sei outras muitas de egual moralidade, como a do poeta Jorge da Silva, que expiou no Limoeiro os seus amores a uma irmã de D. João III; e tambem sei que D. João da Silva, por malogrado amor á imperatriz Leonor, filha de D. Affonso V, se fez frade franciscano, chamou-se o Beato Amadeu, e disciplinou as rebeldes carnes, lembrando-se sempre do paço como S. Jeronimo se lembrava das virgens de Roma nos areaes do Mar Morto. Não ignoro que D. Affonso V mandou degolar um Duarte de Souza que visitava fóra de horas uma das suas criadas. Sei, finalmente, o que custam sereyas da côrte, desde que D. João I mandou queimar no Rocio o seu camareiro Fernando Affonso, por que uma dama da rainha se queimára nas chammas do gentil galan… Sei tudo o que diz ao intento das reflexões de vossa mercê; mas eu já lhe declarei que vou attrahido á capella real pela musica á imitação do penhasco arrastado por Orpheu; depois, irei, como Cezar, Quó Deus impulerit. De damarias não curo, nem por mulheres vai longe quem lhes procura a fortuna no regaço. Não me deu Deus geitos de pagem, nem de nâmorado de arrabil. Sou de Guimarães, onde os corações tem mais aço que flores. Tudo que ali nasce parece sahir da forja onde se fazem as rijas laminas das facas de matto e das alabardas.

II

A residencia no paço da Ribeira facilitou ao moço da capella relacionar-se com fidalgos que o estremaram da turba da criadagem.

O capellão-mór D. João da Silva, irmão do marquez de Gouveia, agradecido ao rei intruso que, em 1625, dera a seu irmão Manrique, conde de Portalegre, a coroa de marquez, ajoelhava nos estrados da vice-rainha, como outros muitos portuguezes que, volvidos quatro annos, a ameaçaram de ser despejada á rua sobre o cadaver de Miguel de Vasconcellos (Nota 4.ª)

Este D. João da Silva corria com os negocios da grande caza de seu irmão, e sentia-se escasso de ideas e até de orthographia para dignamente fazer a correspondencia. Outros fidalgos lhe gabaram a esperteza de Domingos Leite, incitando-o a estipendial-o como secretario.

Convidado para o serviço da casa do capellão-mór, o moço da capella, perscrutando ao longe, na escrevaninha de D. João da Silva, uma aberta, para elevadas regiões, acceitou o encargo com dobrado salario, e sahiu do paço com fastio á musica do Alvarado e aos vilhancicos do Guerreiro com que na noite do Natal lhe gelaram a piedade na alma e nos ouvidos.

Logo que poz mão no archivo da casa de seu amo, assignalou-se a actividade intelligente do secretario.

Ganhando a confiança de D. João e tambem a do marquez, entrou no segredo de certos actos clandestinos da politica, e por ahi lhe alvoreceram esperanças de entrar em carreira mais frizante com a sua vocação, que elle ainda não sabia ponctualmente qual fosse.

Com quanto os Silvas da casa de Portalegre ou Gouvêa não sejam nomeados entre os principaes fautores da conjuração heroica a favor do duque bragantino, é averiguado que o marquez de Gouvêa e seus irmãos assentiram á sublevação de 1640; d'outro modo D. João IV não nomearia seu mordomo-mór o marquez que recebêra o titulo da chancella de Filippe III, cujo mordomo-mór fôra tambem.1

Em caza do aulico da vice-rainha conversava-se, planeavam-se alvitres ácerca da restauração, e não havia rezervas na presença de Domingos Leite, abonado por seus amos e pelo enthusiasmo dos seus dizeres conceituosos em annos tão juvenis. Os douctores João Pinto Ribeiro e João Sanches de Baêna que, para assim dizer, foram o cerebro, o pensamento do gigante que estendeu braços de ferro no 1.º de dezembro, tinham justificado a confiança dos fidalgos, dignando-se approvar a admissão de Domingos Leite Pereira ás reuniões da gente media, afim de a ir educando e predispondo com argumentos patrioticos, mui eloquentemente discursados.

E o ensejo veio bem de molde á explosão das iras de um portuguez palavroso. N'aquelle anno de 1637 era o povo esmagado com tributos; e a nobreza, menos ferida nas suas rendas, olhava de esconso para a desgraça das classes mechanicas, e de fito para os seus proprios interesses. Não obstante, alguns fidalgos sob-capa incitavam ao longe os motins. Nos tumultos de Evora, houve precedencia de conciliabulos em que dois homens da cidade e um estranho e desconhecido das turbas oraram de feição a irritar a rebeldia ás execuções tributarias do corregedor André de Moraes Sarmento.

Os sediciosos eborenses eram Sezinando Rodrigues e João Barradas; e o de fóra era o quasi imberbe Domingos Leite Pereira, que depois de haver pedido na praça a cabeça do corregedor, e rompido os diques á onda popular contra o arcebispo e outros fidalgos que sahiram de cruz alçada a socegar os amotinados, appareceu orando ás turbas preceitos de prudencia e respeito ao ancião conde de Basto.

Vê-se que a vocação do rapaz, afinal, era a politica.

Em 1638 morreu D. João da Silva. Logo o marquez de Gouvêa chamou aos segredos da sua escrevaninha Domingos Leite, exonerando-o dos encargos impertinentes da administração da caza, e investindo-o de occupação mais condigna. Os seus trabalhos meditados e escriptos eram relativos á republica, já trasladando papeis mysteriosos que se trocavam entre Portugal e Castella, já discorrendo de lavra propria declamações contra o uzurpador, as quaes eram lidas com um sorriso de complacencia por João Pinto Ribeiro, e repetidas com enfaze pelo padre Nicolau da Maya aos lagrimosos burguezes da caza dos «Vinte-e-quatro.»

Страница 2 из 48

Вам также может понравиться

Страница 1 из 195

Назад12195Далее