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О книге

Дата написания1970-01-01
Язык книгиpt
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Страница 44 из 44

Carlota Angela appareceu, encostada ao braço de sua tia. O monge erguera-se, e voltado para ellas baixara a cabeça, e não mais erguera do chão os olhos. Encostando uma das mãos á banqueta da grade, sentia-se o tremor d'este movel sob a pressão convulsa. Apenas a madre Rufina proferira alguns monosyllabos, Carlota fitara os olhos lucidos de um brilho sinistro no habito do monge, e, voltando-os, silenciosa, para sua tia, parecia perguntar-lhe se era aquelle Francisco Salter.

–Francisco!—balbuciou ella.

O frade estremeceu a esta voz, e encarou a freira.

–Francisco!—repetiu ella com a voz quasi desfallecida—és tu?

–Não vol-o disse, minha irmã, que me não conhecerieis?—disse o benedictino com um violento sorriso.

–Conheço, conheço…—tornou ella, sentando-se, ou caíndo na cadeira aonde a tia se esforçara em sental-a.—Era assim que eu o via nos meus delirios, irmão da minha alma. Cá o sentia no coração morrendo assim… Faltava-me ouvir este som de finados que me está cortando os ultimos fios… É por mim, ou por ti, Francisco? … por ambos…

De feito, soava um dobre a finados na torre do mosteiro. Expirara momentos antes uma religiosa d'aquella casa, a quem Carlota pedira que intercedesse ao Senhor por ella, a fim de que a chamasse a si antes que se apagassem os cirios do funeral da agonisante. Esta fizera um gesto affirmativo, e expirara com os olhos fitos na freira.

Carlota proferira aquellas palavras, e pedira uma gotta de agua. Emquanto soror Rufina descera á portaria a buscal-a, a freira introduziu a custo o braço pela grade e disse:

–Francisco! dá-me a tua mão.

O monge tomou a mão de Carlota, e, ao apertal-a, sentiu a frialdade humida da mão de um cadaver. A posição da religiosa era violenta, com o peito encostado aos ferros, e a tosse suffocava-a. Frei Francisco fez esforço para afastar o braço, mas debalde. Aquella mão apertava como a do naufrago em trances de morte. Um frouxo de tosse salpicou de sangue o braço do monge, e em seguida, já quando Rufina entrava na grade com o copo, a mão de Carlota decaíu com o braço ao longo da grade, a fronte pendeu para as costas da cadeira, o outro braço já se não ergueu para tomar o copo da agua que lhe roçava os labios humidos de sangue.

–Minha filha!—exclamou a atribulada freira. Carlota descerrou as palpebras, relanceou a vista quasi apagada para o monge, e fechou-as de novo, murmurando:

–Ouviu-me Deus!

Rufina soltou um ai vibrante, e caiu de joelhos aos pés da sobrinha.

Frei Francisco ajoelhou tambem, e disse com terrivel serenidade:

–Oremos por ella. Meu Deus! recebei a martyr em vosso seio!

CONCLUSÃO

Cinco annos depois, vivia ainda no mosteiro de S. Martinho de Tibães frei Francisco da Soledade.

Os leitores de mais rija e invulneravel organisação admiram-se de que tal homem podesse viver tanto.

A mim custar-me-hia tambem a crel-o, se m'o não fizessem acreditar pela data da lousa que vi na claustra d'aquelle mosteiro, com os meus proprios olhos.

Viveu cinco annos para purificar-se e fazer-se digno da esposa que o esperava no céo.

Quereis saber a purificação qual foi?

Norberto de Meirelles e sua mulher, quando a filha expirava, luctavam com as extremas perseguições da fortuna infausta.

Mezes depois, estavam pobres, pobres até á indigencia.

Frei Francisco chamou estes infelizes para a visinhança do mosteiro, e dava-lhes tres partes do seu pão. A communidade, quando conheceu tamanha virtude, repartia tambem do seu por elles. A mãe de Carlota expirou nos braços do monge, o velho sobreviveu-lhe um anno, e expirou quinze dias antes de frei Francisco.

Francisco Salter saíu d'este mundo, quando já não tinha a quem perdoar em nome de Carlota Angela.

Vêde-me do céo a mim, e a todos os infelizes, almas bemaventuradas!

Não foi a minha imaginação que vos creou! Logo que eu me senti soffrer em vós, a vossa passagem na terra deixou vestigios.

FIM

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